Professor de Sociologia

Educação Escolar e Social

Pedagogia Problematizadora na Assistência Social

By Slobodan Dimitrov (Own work) [CC-BY-SA-3.0 (www.creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0) or GFDL (www.gnu.org/copyleft/fdl.html)], via Wikimedia Commons

Paulo Freire
fonte: Wikipedia

O pensamento de Paulo Freire tem um vínculo estreito com o campo da Assistência Social. Sua vida foi marcada pelo início de sua carreira como educador, quando trabalhou entre assistentes sociais no SESI de Pernambuco. Por outro lado, o Serviço Social brasileiro, dentro do Movimento de Reconceituação ocorrido desde a década de 1960, aproximou-se de sua concepção de educação popular (NETO; FALEIROS apud MACHADO, 2012).

Nas Orientações Técnicas sobre o PAIF há menções a respeito da utilização da Pedagogia Problematizadora. No volume 1 (BRASIL, 2012a) consta, na bibliografia, o livro “Pedagogia do Oprimido”, e uma citação aparece ao final do texto.

Já no volume 2 (BRASIL, 2012b) há uma seção específica sobre abordagens metodológicas, na qual sugere-se o uso da Pedagogia Problematizadora. Contudo, o capítulo não preocupa-se em esclarecer o complexo pensamento freiriano, é realmente apenas uma sugestão. O que vemos é um pincelar de categorias sem a devida referência à totalidade das obras. Outro problema também acontece ao não se justificar qualificadamente a adequação de uma teoria-prática voltada principalmente à educação popular para o contexto do trabalho social. Fala-se somente na proximidade entre pressupostos (p. 89). No caderno CRAS: Marcos Legais (SÃO PAULO, 2009), de São Paulo, faz-se uma melhor justificativa. Discutindo como vincular algumas abordagens terapêuticas dentro do trabalho social, encontra-se a solução no aspecto dialógico do pensamento freiriano, que (aqui está o ponto) extrapolaria seu caráter pedagógico (p. 62).

Acredito que o importante desta discussão está em ressaltar a dimensão política da Pedagogia Problematizadora, a qual não está posta satisfatoriamente nos dois volumes das Orientações Técnicas. Perde-se o que é essencial: o empoderamento dos estratos oprimidos objetivando a transformação da realidade opressora capitalista. Esta possui características determinadas, concretas, bem diferente de expressões abstratas como “transformação da realidade” e “mantêm o status quo” (p. 13), “a mobilização social e o protagonismo da comunidade” (p. 35), “intervenção na dinâmica social e (…) presença proativa no espaço público” (p. 36), e por aí em diante. Esta radical diretriz de transformação, tal qual desenvolvida pelo autor, não pode ser desprezada sem que sua metodologia seja deturpada e acabe por agir contra o que lhe foi mais caro: o fim das relações sociais de exploração via transformação do capitalismo (FREIRE, 1987).

Praticamente, dentro do trabalho social com famílias, é preciso problematizar o entorno social próximo, este é o ponto de partida. Busca-se uma leitura de mundo conjunta (equipe e família) e crítica (conhecer e intervir), que objetive superar a situação encontrada via a construção de um plano familiar. Contudo, ao observarem mais claramente sua condição, obstáculos e potencialidades, deve haver um esforço de relacioná-la a outros determinantes sociais mais abrangentes.

Nesse sentido, os limites da política social encontram-se com os limites da fracassada educação popular latino-americana: concepções de que as transformações da realidade estrutural seriam feitas pelo desenvolvimento sócio-econômico dos grupos populares e não da totalidade social, uma inversão de causa e efeito (BRANDÃO, 1984). Se é para utilizarmos uma citação que sintetize as orientações de Freire quanto ao trabalho social, que seja esta:

“…não posso também aceitar, impassível, a política assistencialista que, anestesiando a consciência oprimida, prorroga, ‘sine die’, a necessária mudança da sociedade” (p. 89).

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BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Educação Popular. São Paulo: Brasiliense, 1984.

BRASIL. MDS. Orientações Técnicas sobre o PAIF volume 1: O Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família – PAIF, segundo a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais. Brasília: 2012. Versão preliminar.

BRASIL. MDS. Orientações Técnicas sobre o PAIF volume 2: Trabalho Social com Famílias do Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família – PAIF. 1a. edição. Brasília: 2012.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

MACHADO, Aline Maria Batista. Serviço Social e Educação Popular: diálogos possíveis a partir de uma perspectiva crítica. Revista Serviço Social e Sociedade, n. 109, p.151-178. São Paulo: 2012.

SÃO PAULO. Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social. CRAS: Marcos Legais. Coleção São Paulo Capacita, v. 1. São Paulo: 2009.

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